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- Atualizado em 29/01/21 às 16h49

Sem fonte de renda, baianos voltam a ter medo da fome com fim do auxílio

Em meio a crise, garantir o pão de cada dia se tornou um desafio

Foto: Varela Notícias

Antônia Fernanda e Brenner Menezes
redacao@varelanoticias.com.br

“Quando eu comecei a receber o auxílio foi um alívio porque tinha muitas contas para pagar e o bico que eu fazia tive que parar porque fechou a loja que eu trabalhava. O auxílio me ajudou muito a pagar as contas e colocar o alimento na mesa”. O desabafo é de Luciene Lemos. Aos 29 anos e com um filho para criar, a operadora de telemarketing conseguiu ainda no início de 2020 um “bico” em uma loja de roupas, mas logo foi dispensada após o decreto de fechamento do comércio. Hoje, ela está fora do mercado de trabalho formal e precisa se virar para conseguir alimentar o filho.

“Atualmente estou sem renda. Eu vivo com a pensão que o pai de meu filho paga no valor de duzentos reais”. O auxílio emergencial concedido pelo Governo Federal para Luciene foi fundamental para que sua família não passasse necessidade. Agora, o cenário, para ela, é o mesmo do que é para milhares de baianos que dependiam do auxílio emergencial. “Estamos vivendo um futuro incerto, a gente fica tentando ser otimista, mas sempre fica aquele pensamento de que pode piorar”.

Lidiane Santana, que é moradora do município de Castro Alves, vive o mesmo drama que Luciene. A costureira, moradora do município de Castro Alves, na Bahia, chegou a ter crises de ansiedades por conta do fim do benefício e começou a ser medicada para aliviar os sintomas. Desempregada, ela vive apreensiva por não ter dinheiro para pagar as contas. “Por conta de tudo isso, de eu estar desempregada, sem uma renda eu tive uma crise de ansiedade e o médico me recomendou tomar Rivotril para acalmar meus nervos, pois eu estou de cama”, diz à equipe do Varela Notícias.

“O auxílio aliviou a minha questão financeira, já que eu e meu marido estamos desempregados. Com o benefício eu pagava água, luz e comprava comida. Recebíamos mais que um salário minímo e foi um período de salvação durante a pandemia. Foram meses tranquilos, eu recebia R$ 1,200 reais e meu marido R$ 600. Era uma renda que nem a gente trabalhando iríamos conseguir”, disse Lidiane.


Foto: Arquivo Pessoal

“A pandemia não acabou e o auxílio diminuiu. Assim vieram as dificuldades, já que o valor foi reduzido pela metade. Eu comecei a trabalhar com costura e meu marido fazia alguns bicos, e dessa forma a gente se virava. Agora, com o fim do benefício, é desesperador. Não sabemos o que vai acontecer daqui pra frente”, acrescenta.

Com a pandemia do novo coronavírus milhões de brasileiros tiveram que enfrentar, além da batalha contra o inimigo invisível, o grande índice de desemprego no país. Em meio a crise, garantir o pão de cada dia se tornou um desafio.

Ao VN, Ramon Magalhães, um jovem de 28 anos, conta que está desempregado há mais de 9 meses. Antes da pandemia, ele trabalhava como mototáxista em Lauro de Freitas, mas teve que deixar a vida corrida nas ruas para cumprir o isolamento em casa.

“No momento eu me encontro desempregado, fazendo freelancer. O ano de 2020 para muitas pessoas foi um ano bem difícil, inclusive pra mim. Com o cancelamento do auxílio eu estou sem renda, fazendo um bico hoje, outro amanhã. É incerto, eu nunca sei quando vou ter [trabalho]. Eu estou vivendo assim, eu não sei o que vou fazer amanhã”, conta o motociclista.

Ao contrário do que muitos imaginam, a cada anúncio da extensão do benefício, Ramon ficava angustiado por imaginar que pandemia estava longe de acabar. “O auxílio emergencial me ajudou com as despesas de casa pois eu não tinha de onde tirar o dinheiro, não estava trabalhando”.

Ramon Magalhães
Ramon Magalhães/Foto: Arquivo Pessoal

“Em contra partida, a cada mês que eu pegava o auxílio eu ficava com medo e pensava: ‘Essa pandemia não vai acabar nunca?’. Isso me deixava aflito. Tinha também a questão de ficar dentro de casa trancado, a ansiedade e alguns momentos de conflitos”, completa Magalhães.

No entanto, sem previsão para o fim da pandemia, o laurofreitense defende a volta do benefício. “Se o vírus ainda existe, não deveria cortar o auxílio porque o desemprego só aumenta. Se ainda existe o vírus, o auxílio deve continuar nem que seja pela metade”.

Ainda em Salvador, a equipe do VN encontrou Roqueline Alves, de 36 anos. Apesar de ser profissional da saúde, a técnica de enfermagem está desempregada e recebeu o benefício nos últimos oito meses. “Não estou trabalhando e por isso não concordo com o fim do auxílio emergencial, pois quando eu recebia o benefício eu conseguia ajudar dentro de casa, mas agora as coisas ficaram difíceis”.

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Roqueline conta com a ajuda da mãe para custear as despesas. “Eu moro com minha mãe e minha filha de 3 anos de idade. Nesse momento eu não tenho renda alguma, minha mãe que está me ajudando, pois ela é aposentada. Mesmo assim as coisas estão bem difíceis dentro de casa”. Desempregada há mais de três anos, Roqueline afirmou que “houve momentos que foi preciso diminuir a quantidade de alimentos”.

O auxílio emergencial começou a ser pago em abril de 2020, no valor de R$ 600,00. No entanto, mães solo tinham direito ao dobro deste valor. Além daqueles que perderam os seus empregos durante a pandemia, tem os profissionais autônomos que sofreram impactos em suas rendas, como é o caso de Márcia.

A vendedora de fitas religiosas contou ao VN que após queda das vendas e fim do benefício, ela está sobrevivendo através de doações de amigos.

Márcia é Candeias, mas veio para capital baiana vender seus produtos no último dia 14 na Lavagem do Bonfim, mas não obteve sucesso. “A única renda que eu tenho são as vendas das fitas e terços. São artigos religiosos que estou podendo vender, já que algumas igrejas estão fechadas”, explica.

“Fui para Salvador com dinheiro emprestado para comprar mercadoria e não tive um retorno esperado. Sem o auxílio estou literalmente sem renda. Eu estou vivendo de ajuda dos amigos que me conseguem cestas básicas. Graças a deus minha casa é própria e eu não pago aluguel”, relata Márcia.

Desempregada há 5 anos, Elizabete Sales dos Santos, natural de Água Fria, interior da Bahia, pôde aliviar a situação financeira durante os 9 meses que recebeu o benefício do Governo Federal. Através do auxílio, ela conseguiu pagar as contas de casa e despesas do filho de 1 ano de idade.

“Fiquei feliz por saber que teria essa ajuda. Pois, nesse momento de pandemia ficou ainda mais difícil conseguir emprego. Usei [o dinheiro] para ajudar nas dispesas de casa. […] Com tantas pessoas ficando sem emprego durante a pandemia, eu fiquei preocupada porque ia se tornar mais difícil para também conseguir algo no mercado de trabalho. O auxílio me deixou muito mais segura”, conta Elizabete.

Morando com os pais, o esposo, irmãos e o filho, ela revela que o benefício era a única renda da família. Devido a isso, a dona de casa defende a volta do benefício. “A pandemia ainda continua e muitas pessoas continuam desempregadas. Pessoas que tem dificuldades de conseguir emprego, assim como eu”.

Desemprego

No Brasil, o desemprego já atinge mais de 14 milhões de brasileiros. Na Bahia, o índice chega a 19,8%. Com o fim do auxilio emergencial cerca de 3,4 milhões de brasileiros ficam abaixo da linha da extrema pobreza.

De acordo com o Ministério da Cidadania, o auxílio emergencial beneficiou cerca de 69 milhões de brasileiros. Outros 15 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza até agosto de 2020. Com o benefício, a pobreza reduziu em 23%.



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