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- Atualizado em 05/06/20 às 17h08

Artistas independentes falam sobre impacto da pandemia no cenário musical baiano

Estudos apontam que, com o distanciamento social, os prejuízos do setor no país podem superar a casa dos R$ 100 bilhões

(Foto: Reprodução / Instagram)

Edvaldo Sales*
redacao@varelanoticias.com.br

Devido ao isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19) no Brasil e no mundo, a atual situação da indústria cultural não é nada animadora. A estimativa de João Luiz de Figueiredo, coordenador do mestrado profissional em gestão de economia criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM, é que o prejuízo na área, que responde por 2,64% do PIB brasileiro, pode ser de mais R$ 100 bilhões. Isso não apenas deve afetar toda a cadeia produtiva, como pode ditar a maneira como se faz e veicula arte.

Dentro da indústria cultural, embora artistas como Marília Mendonça e a dupla Jorge & Mateus consigam reunir milhões de pessoas em lives realizadas no YouTube, a música foi um dos seguimentos mais afetados, principalmente pelo fato de shows não poderem ser realizados. Esse impacto é sentido ainda mais pelos artistas independentes.

Ganhando cada vez mais visibilidade no cenário da música baiana, o rapper Yan Cloud, dono dos hits ‘Lança a Braba’ e ‘My Dream’, falou em entrevista exclusiva ao Varela Notícias sobre a incerteza do momento. “O cenário musical baiano já tem uma dificuldade porque, obviamente, o centro do mercado é São Paulo e Rio de Janeiro. Então, eu acho que está muito incerto, falando principalmente por mim e pelas as pessoas com quem eu ‘trampo”.

(Foto: Reprodução / Instagram)

Segundo o jovem de 23 anos, os investidores estão com medo porque não sabem como vai ser o retorno. “A gente estava em uma crescente massa, tipo Show da Virada, os eventos que tiveram no Verão da Itaipava, depois Carnaval, trio elétrico todos os dias, tocamos com Psirico e Pabllo Vittar. E do nada, para tudo. Então, as pessoas que investem estão com medo de investir porque não sabe como está o consumo”.

Cloud pontuou que os shows para ele e para as pessoas com quem trabalha era o que gerava mais retorno financeiro. O rapper acredita que a partir de agora o ideal vai ser investir ainda mais nos streamings, mas ressalta: “Está todo mundo meio na dúvida de como isso vai ser, pois está tudo muito incerto, as métricas das redes sociais mudaram. Incerteza define esse momento para a galera que ‘trampa’ com música”.

O dono do ‘Cabelo Quadrado Mais F*** da City’, ressaltou o rap falando sobre como o segmento ainda é muito independente e por isso sente ainda mais o impacto. “O rap é um mercado que ainda está muito independente, apesar de estar conseguindo conquistar espaço. A maioria dos rappers que fazem sucesso ainda trabalha de forma independente, como o Baco Exu do Blues, até o Emicida que é maior em termos de sucesso, ele tem a gravadora dele independente. Então não tem um grande investimento do mercado. Então eu acho que vai sofrer muito esse ‘baque’ do coronavírus”, disse.

(Foto: Reprodução / Instagram)

Compositora e cantora pop que também vem se destacando no cenário musical baiano, Nêssa, responsável pelos sons ‘Que Calor’, ‘Slow Motion’, e o mais recente, em parceria com ÀTOOXXÁ, Yan Cloud e Zamba, ‘Aquele Swing’, enxerga o impacto na música de uma forma muito preocupante.

“Aqui no Brasil, principalmente, a cultura é vista como algo fútil, de só entreter, tanto é que não tem muito investimento. Eu falo no geral, não só na música, por isso eu acho que foi um dos setores mais atingidos. E claro que eu fico preocupada”, disse a jovem em entrevista ao VN.

De acordo com a compositora, a música não está rendendo mais nada para ela no momento, e diz estar conseguindo pagar as contas de outra forma. “Eu pelo menos tenho o privilégio, vamos dizer assim, de ter outro trabalho paralelo à música, eu não sou apenas cantora, eu sou designer e ilustradora, e eu trabalho em um estúdio de animação, então é isso que está pagando o meu salário. A música não está me rendendo mais nada agora”.

Assim como Yan Cloud, Nêssa estava em uma crescente muito boa antes da paralização do setor. “No carnaval trabalhei muito, quase todos os dias, e de repente teve essa pandemia, paralisou tudo, e aí a gente fica sem saber o que fazer porque nunca vivemos isso antes. Estamos tendo que nos reinventar do zero porque eu não estava preparada para isso”.

Se reinventar é preciso

(Foto: Reprodução / Instagram)

Em meio a toda essa incerteza, se reinventar tem se tornado uma alternativa necessária. Quando questionado durante a entrevista, Cloud disse que já vem fazendo isso há mais ou menos dois anos. “Eu já tinha pegado a visão de que dava para fazer coisas com o celular. Eu fiz um clipe de uma música chamada ‘Nem Precisa de Refrão’ que eu gravei todo com stories do Instagram. É como se eu estivesse entrando no meu perfil e vendo meus stories. Então eu sempre tive essa noção de que dava para fazer coisas interativas e bacanas com pouco recurso”, disse o rapper.

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Publicitário em formação, o artista tem uma pequena noção de audiovisual e design, o que facilita no momento de por as suas ideias em prática. “Eu estou nessa de produzir conteúdos além da música. Recentemente, eu chamei um amigo aqui para casa e a gente fez uma live e a onda era pegar os beats de outros amigos e fazer o máximo de música e clipes que descem para fazer. A gente foi deixando isso na live para a galera acompanhar o processo de criação. Eu acredito que isso é uma forma de se reinventar”, pontua.

Yan ainda ressalta que nesse momento de pandemia e isolamento, a pessoas querem algo além da música, ou seja, mais interação. Ele reforça: “Gerar conteúdo além da música está sendo a minha maneira de se reinventar”.

Para Nêssa, se reinventar, ainda mais de forma virtual, é uma coisa difícil, principalmente porque as pessoas estão recorrendo muito a lives. Com isso, ela acha que a estratégia dela vai ser trabalhar no streaming com lançamento de músicas. No entanto, no momento, ela não está produzindo. “No meu caso especificamente eu não estou produzindo nada porque eu não tenho saúde mental para isso agora, não estou conseguindo. Tem muita gente que está e eu admiro muito, mas eu parei de me cobrar isso porque eu tenho que respeitar o meu momento”.

Por não ter estrutura em casa, a cantora não tem como gravar. “Não tenho home studio, eu precisaria ir para um estúdio de gravação e não tem como fazer isso agora porque está tudo fechado. O que estou fazendo é esperar tudo isso passar para retomar os meus trabalhos e os meus projetos”, disse.

No entanto, Nêssa falou que tem observado outros artistas e o que eles estão fazendo. “Alguns estão gravando clipe em casa, tem muitos montando o seu home studio, aprendendo a produzir música e comprando equipamento de gravação”.

Perspectivas pós-pandemia

(Foto: Divulgação)

Segundo Leandro Valiati, professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o mercado cultural terá protagonismo econômico durante a retomada pós-pandemia, mas, para isso, é necessário reforçar os fundos públicos que financiam as atividades.

Entretanto, para artistas independentes como Nêssa e Yan, as perspectivas pós-pandemia são muito difíceis de serem avaliadas.  “A gente nunca passou por uma situação dessa e não tem como prever o que vai acontecer, nem quando vai acabar. O carnaval pode estar comprometido porque demanda aglomeração, e a principal fonte de renda as vezes é o carnaval e o verão aqui na Bahia. E como, muito provavelmente, a música vai ser o último setor a ser normalizado, a gente fica de mãos atadas”, disse a dona do hit ‘Que Calor!’.

Ela continua e comenta a desvalorização da cultura em um momento no qual as pessoas estão buscando a arte para se acalmar. “Eu só espero que tudo isso acabe logo, que as coisas normalizem para a gente poder voltar a trabalhar. É muito triste viver em um país onde a cultura não é valorizada. Em um momento como esse as pessoas estão buscando a arte para se distrair. É o setor que está sendo mais procurado agora porque as pessoas estão em casa e querem ler um livro ou ver um filme para fugir dessas notícias ruins. Ou seja, a cultura é um setor que está desempenhando um papel fundamental nesse momento e foi o setor mais atingido”.

Fazendo parte de um coletivo com amigos pessoais que têm na musica um sonho em comum, Yan diz que eles conversam muito sobre a retomada. “A gente não sabe o que vai acontecer, não temos conhecimento grandioso do mercado, sabemos o básico e tentamos aprender com o que dá. Mas a gente não sabe o que está rolando nos bastidores da grande indústria musical, não sabemos como os artistas grandes estão se planejando, como que vão ser os shows ou quando que vão voltar”.

De acordo com o rapper, eles estão lançando o que já tinham em mãos que foi feito antes da pandemia e produzindo coisas novas. “(…) Estamos tentando nos manter porque o grande desafio de ser artista independente é esse, estar sempre produzindo com o mínimo para poder não cair no esquecimento”.

*Sob supervisão de Anderson Ramos



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